Por que não existe um “Transtorno de Raiva”? – A seleção dos sentimentos patologizáveis

O Anjo Caído - Alexandre Cabanel,1847

Em nosso vocabulário emocional, a raiva ocupa um lugar central. É uma experiência humana universal, uma reação visceral a injustiças, frustrações e ameaças. No entanto, você já se questionou por que a raiva, apesar de sua intensidade e impacto em nossas vidas e relacionamentos, não figura como um diagnóstico psicológico e tampouco está representada claramente no DSM-5, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais?

A Coadjuvância da Raiva em Contraste com a Patologização de Outras Emoções

A primeira resposta que pode nos ocorrer é a de que a raiva é simplesmente uma emoção humana básica, inerente à nossa natureza. E de fato, ela compartilha essa característica com a ansiedade e a tristeza. Todas elas são vivências emocionais universais, presentes em diferentes culturas e momentos da vida. Contudo, enquanto a ansiedade e a tristeza recebem uma atenção constante no campo da saúde mental, com a tentativa de identificar e diagnosticar “transtornos de ansiedade” e “transtornos depressivos”, a raiva parece ter um destino diferente no universo diagnóstico.

O Ocultamento da Fúria: Engolida pelos Grandes Transtornos

A verdade, como o texto sugere, é que a raiva, enquanto afeto primário, acabou sendo, de certa forma, subsumida e ofuscada pelo foco nos chamados “grandes transtornos” de personalidade, como o Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) e o Transtorno de Personalidade Antissocial (TPAS). Nesses quadros clínicos complexos, a raiva intensa, a irritabilidade e a dificuldade no controle dos impulsos são frequentemente sintomas proeminentes, mas raramente são o foco diagnóstico principal. A raiva, nesse contexto, torna-se uma peça dentro de um quebra-cabeça maior, perdendo sua visibilidade como uma problemática individualizada.

No entanto, a experiência cotidiana nos mostra que a raiva, mesmo isoladamente, pode se manifestar de forma desmedida e disfuncional. Qualquer pessoa é capaz de reconhecer em si mesma ou nos outros, quais seriam momentos em que a raiva explode de maneira desproporcional à situação, causando prejuízos significativos nos relacionamentos, no trabalho e na qualidade de vida. 

Um Grito de Coragem: Permitindo que a Raiva seja Ouvida

Toda emoção humana se significa ao longo de uma longa história de vida. A manifestação insistente de uma determinada emoção em momentos nos quais aparentemente o contexto não as demanda, insinua que sua invocação deva estar sendo feita por algum desses significados, evidenciando a necessidade de que as ideias que os constroem sejam expressas de alguma maneira. Negligenciar a força dessas expressões é necessariamente limitante para o bom desenvolvimento psíquico, e estimula estruturas sintomáticas que não precisariam haver se transformado em um fardo a ser carregado pelo indivíduo. 

Buscar uma maneira de expressar sentimentos verdadeiros precisa ser mais importante do que zelar pela repressão diligente de sentimentos inadequados socialmente. A análise oferece um espaço condizente e seguro para investigar as origens dessa raiva persistente. Em vez de reprimi-la ou deparar-se com os danos que ela causa para aqueles que não são o verdadeiro alvo, a análise pode auxiliar na identificação do objetivo verdadeiro que mantém essa raiva tão presente em sua vida.

Imagine transformar essa energia intensa da raiva em um motor para a mudança, direcionando-a para a resolução dos conflitos subjacentes que a alimentam. Em vez de continuar reagindo impulsivamente, “dando patadas” em pessoas que você não deseja magoar, a análise pode te capacitar a escutar seu sentido, utilizar essa emoção como um sinalizador de questões mais profundas a serem trabalhadas.

A ausência de um “Transtorno de Raiva” como diagnóstico formal não significa que essa emoção deva ser ignorada. Ao contrário, é preciso sermos “bravos o bastante” para mergulharmos na complexidade da nossa raiva em um processo analítico, buscando não sua eliminação, mas sim sua compreensão e seu direcionamento para um caminho mais saudável e construtivo. A verdadeira bravura reside em enfrentar nossas emoções mais intensas e transformá-las em ferramentas de crescimento.

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