Hiperatividade a princípio pode soar como uma capacidade magnífica, mas a dificuldade de sustentar o interesse até a consecução de uma tarefa mostra um conflito entre o desejo de agir e a necessidade de controlar impulsos. Essa repressão dos impulsos resulta em um ciclo de satisfação inalcançável, um vazio interno que precisa ser preenchido por um estímulo externo a ser buscado em uma nova atividade que tampouco será concluída.
Ser ativo, ser super, ser hiper. Tais adjetivos poderiam ser a promessa de uma vida repleta de realizações, mas que são o descritivo para o TDAH, o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Ser capaz de se engajar em múltiplas atividades simultaneamente pode ser a promessa de não encontrar realização em nenhuma delas, deixando entrever um conflito psíquico mais profundo.
O que faz com que essa disposição se instale de forma duradoura o bastante para ser considerada um transtorno pode certamente ter origens variadas, mas poderíamos pensar em algumas respostas mais comuns:
A incapacidade de manter o foco pode se tratar de uma falha na internalização de limites e na capacidade de regular impulsos. Essa dificuldade em conter a energia psíquica pode estar relacionada a experiências precoces de desenvolvimento, onde a criança não internalizou adequadamente as figuras de autoridade e as regras sociais.
Outro elemento possivelmente presente é a constante busca por novos estímulos e a incapacidade de concluir tarefas podem ser vistas como uma tentativa de evitar o contato com sentimentos e pensamentos dolorosos. A ação impulsiva e a hiperatividade funcionam como mecanismos de defesa, mantendo o sujeito constantemente ocupado e distraído, impedindo a elaboração de conflitos internos.
Critérios Diagnósticos
O DSM-5 descreve alterações marcadas por impulsividade/hiperatividade e/ou desatenção, sendo que vários dos sintomas estão presentes antes dos 12 anos;
- Tais alterações estão presentes em pelo menos dois ambientes e devem ter uma duração mínima em torno de 6 meses;
- A apresentação não é compatível com o estágio do desenvolvimento e exige a exclusão de outros transtornos mentais;
- Possui um impacto negativo em diversas áreas da vida (laboral, social ou acadêmica) e diminui ou atrapalha o funcionamento;
- Deve-se excluir diagnósticos de transtorno opositivo/desafiador, dificuldade de compreensão e hostilidade por parte do paciente;
Para fechar o diagnóstico são necessários, no mínimo, seis sintomas antes dos 17 anos e cinco sintomas após os 17 anos:
- Impulsividade/ hiperatividade: Dificuldade em aguardar sua vez; não fica sentado quando se espera que o faça; “motor ligado”, “não para”; se intromete ou interrompe; não consegue aproveitar as atividades de lazer ou brincadeiras de forma calma; comportamento de batucar os membros, se contorcer na cadeira ou remexer; fala muito; inquietação (a partir da adolescência) ou age de forma inapropriada (sobe nas coisas ou corre); tem dificuldade em aguardar sua vez para falar, responde antes de a pergunta ser finalizada, termina as frases dos outros;
- Desatenção: Não escuta quando alguém lhe fala; perde muito as coisas e os materiais necessários para suas tarefas; dificuldade na organização de tarefas; muito distraído; descuidos que resultam em erro; não presta atenção aos detalhes; esquece frequentemente de atividades rotineiras; não consegue sustentar a atenção nas tarefas; não consegue finalizar tarefas ou trabalhos; não segue as instruções até seu final; não se engaja em atividades que exijam um esforço mental por mais tempo.
A repetição desse padrão de comportamento cria um ciclo de insatisfação, onde a busca por prazer imediato e a evitação do desprazer impedem a conquista de objetivos a longo prazo. O sujeito se vê preso em um ciclo de busca incessante por novidades, sem nunca alcançar a satisfação duradoura.